O Equívoco da Morte e seu triste relato.

São 20:57h, um domingo cinzento. O vento uiva pelas frestas da janela. O mês é junho, está frio. Faltam 2 dias para que o mês nos abandone. Aguardo, inquieta, em um canto ao lado. Sinto-me entristecida. A muito não me importava ou sentia remorso daquilo que devo fazer. Por vezes confundo o meu papel, já não sei se sou a causadora em ceifar vidas ou apenas aquela que acompanha almas aos destinos por elas mesmas traçados em seus momentos sobre a terra, onde seus corpos serão recebidos incólumes.

Hoje é diferente! Venho lutando a boa luta com essa alma por anos. Eu sei que um dia eu vencerei, afinal de contas, posso perder batalhas, mas a guerra jamais. Eis que me defronto com um ser digno, que mesmo em seus momentos mais escurecidos, se fez iluminar com seus sorrisos de esperança.

Não mais a reconheço. Não mais é aquela dama que venho acompanhando há tempos… lado a lado. Muitas vezes estive sob seu colchão ou por trás de seus vestidos de linho dentro daquele armário de madeira antiga. Estive tão perto, mas tão perto, que chegava a confundir meu corpo com sua sombra. Andávamos em um mesmo passo.

Esse destino já estava traçado. Anos e anos de uma agonia ensandecida e sem razão. Me punha a pensar porque. Quem decide? O que decide? Perdi muitas batalhas por culpa daquele brilho. Aquela luz que não me permitia aproximar. Era mais forte que eu. Estive lado a lado acompanhando suas derrotas, seu definhar, suas tristezas engrandecidas, tantas vezes por ela elevada e exacerbada. Fui vivendo… quem diria, aquela dor. Por um momento pensei em desistir. Mas imaginei… sempre haverá alguém que sentirá prazer em realizar os maus serviços.

Vago por estes campos há muito tempo. Minha longevidade beira à existência humana. Eu sempre estive por perto. Quase sempre orgulhosa! Muitas vezes em trabalhos árduos… Infanticídios, genocídios religiosos, aniquilações em massa causados por vaidades desprovidas de sanidade, ciúmes… Eu sempre estou por perto! Contudo também tenho minhas crises e, com elas e por elas, ponho-me a perguntar, onde está a honra em sempre vencer uma luta que já se sabe o resultado final? Tentei novas rotinas, novas formas, mas o fim e os fins são sempre idênticos. Acompanhá-los até o caminho que a ti foi destinado é meu dever.

20:59h, o momento se aproxima, minha garganta se fecha, a voz emudece. Ali está ela. Perto. Se estender meu braço a toco. Um sofá velho, uma sala retangular, uma televisão quase sem volume. Um oratório antigo mas em ótimo estado. A tinta da parede descascada. Ela, calma, tentando respirar, para isso há um cano em sua garganta. Não mais entendiam suas palavras. Seus pensamentos já não tinham sentido. Tem 59 anos. Sua face não aparenta esta idade. Resignou-se! Os sulcos na pele denotam mais idade. Não mais é aquela mulher que outrora suscitava inveja até em mim.

O momento, cada vez mais próximo me faz lembrar uma data. 15 de outubro de 1948. Desde lá eu a acompanho. Sua vida sempre esteve entre o abismo e o paraíso. Sua identidade se esvaiu como águas de um rio sem fim. Não era mais quem foi um dia. Não se permitiu. Pensei então que aqueles que não se permitem à vida, não merecem a oportunidade de estarem vivos. Por isso estava ali. O fim é breve!

Aproveitei seu descuido. Cochilava naquele mesmo sofá. Dormiu feliz. A Espanha havia ganhado a Eurocopa naquele mesmo dia. Lembrei de seus anos por lá! Se quase não tinha voz, naquele dia nem isso. Lembrei do seu neto. Da sua mãe. Mas ela não mais lembrava da existência deles.

Ponho enfim minha mão sobre ela. Imediatamente um impulso, um solavanco. Aquilo que a permite mantê-la, salta sobre seus pés. Seu susto assusta a mim. Atordoada observo, não sei se me retiro, se permaneço. Não me sentia assim por tempos. Ela senta. Tenta entender o que houve. Suas mãos vão direto àquele espaço antes preenchido, mas agora está fechado. Não há mais ar. Se põe a travar comigo mais uma batalha, ela se coloca de pé.

No quarto ao lado está sua filha. Porta fechada. Os 4 passos mais longos de sua vida que saltava de si. 5 são as batidas. Nada! Mais 3, agora com as duas mãos espalmadas, desejando que ao menos dessa vez ter a atenção que não os davam há anos.

Não consigo mais caminhar, penso em agilizar sua dor. Minhas pernas tremem. Não há como me mexer. Ela retorna ao sofá. A filha aparece. Seus primeiros gritos de mãe são ouvidos tão longe. Dou dois passos para trás. Estou enojada de mim mesma. Mas essa é a minha atribuição, este é meu papel.

O ar provenientes dos gritos daquela moça não conseguem adentrar os pulmões de sua mãe. Gritos! Telefonemas! Gritos! Observo incrédula a incredulidade do meu ato covarde. Sem ar ela desmaia. Não acorda nem mesmo com o aumento do som daqueles gritos que me fizeram agachar sobre meus pés. Conto até 10 de trás para frente. 3… gritos…2… uma tentativa de aspirar sem sucesso, essa batalha por ti não será ganha…1… por uma fração de segundo, minha mente passa um filme, lembro, desta que está em seus últimos suspiros, ainda menina, correndo em seu quintal, aquele olhar distante, sua adolescência retraída, seu casamento, seu primeiro filho morto após nascer… retorno àquele momento. Vejo uma luz refletir sobre meus pés… Fim! Chegou a minha hora!

Ainda ouço gritos… sempre adorei ouvir a voz do desespero, todavia, dessa vez não. Me ergo. Preferia não estar ali, sair por aquela porta, mas não poderia perder a oportunidade de acompanhar este incrível ser. Mais uma vez lembrei das tamanhas bondades por ela feitas, tinha raiva, agora tenho orgulho. Vejo seus pés passarem por sobre a luz. Meus olhos não conseguem acompanhar, só observam o solo. Estendo minha mão para receber a sua. Normalmente, neste momento, estaria em êxtase. Não hoje. Não mais!

Diferentemente daqueles momentos em que eu era como sua sombra. Agora eis que é a minha sombra que provém do reflexo de sua luz. Luz essa que não mais vem de seus olhos ou sorrisos. Está sobre ela.
São passos longos… o destino final não parece chegar. Não me permito ascender a visão, não sei onde estou. Estou perdida! Caminhamos lentamente, eu mais que ela, desejo aproveitar aqueles segundo finais.

Sempre imaginei que ao final das batalhas, a guerra seria ganha por mim, desta vez perdi a guerra, mesmo vencendo. Chegamos… me ponho a sua frente. Não consigo alavancar meus olhos. Ouço o ruído de um portão se abrindo. Há muita luz! Solto sua mão. O primeiro passo é dado por ela.Sei que ela sorriu!

Eu jamais proferia quaisquer palavras nesses momentos, normalmente apenas ressonava uma risada de dever cumprido. Mas neste dia, às 21:02h, pus para fora aquilo que deveria ser dito por todos aqueles que ao seu lado puderam ter a oportunidade de estar. Como um brado de liberdade, sem olhar para frente, as palavras apenas se libertaram de mim… FOI UMA HONRA!

– Esse texto é uma homenagem àquela que fez meus dias parecerem mais belos, que fez com que o sol sempre estivesse lá, que me pôs ao seu lado da cama quando os pesadelos não me permitiam dormir. Minha mãe Ângela de Oliveira Peranzzetta. Homenagem singela por toda saudade existente nestes 7 anos sem sua presença.